Eu sempre quis escrever sobre discussão. Só que tenho medo de ser completamente mal interpretado ao fazer isso. Portanto, faço um gigante apelo para que leiam este texto da forma mais não-interpretativa possível, pois tudo que eu quero dizer estará escrito "por a + b" neste próprio texto. E este texto não é resposta para nenhum evento que tenha acontecido ultimamente nem nada. Eu sempre quis escrever exatamente o que está aqui e só fiquei adiando e adiando, mas acho que agora não vai ser mal interpretado.
Começando pela conclusão: discutir só pode ser uma arte. Sabe aquela coisa que existe toda uma linguagem própria para ser utilizada para um determinado fim, como desenhar, pintar, escrever, etc, mas cada um interpreta de um jeito diferente? Tem artista que tenta ser altamente objetivo naquilo que quer transparecer para quem vê sua arte, mas mesmo assim ainda existem aqueles que interpretam de outro jeito ou que se inspiram de maneira diferente.
Chega a ficar preocupante quão crítico está ficando se expressar, seja lá qual for a forma escolhida. O critério para o bom andamento de uma discussão, não deveria, mas está totalmente atrelado ao quão próximas estão as idéias dos envolvidos. Ou seja, a discussão só continua se todo mundo tiver concordando. Aí se torna aquela masturbação mental de um dizendo uma coisa sabendo que o outro já vai concordar e assim vai.
Se por acaso houver grande discrepância entre as idéias dos envolvidos, começa a interpretação total. Completamente interpretação. A pessoa fala que é ruim quando a cor preta é colocada somente no quadrado amarelo e o outro entende que todas as cores são ruins em todos os círculos existentes. A partir daí, a segunda pessoa começa a reclamar das cores dos círculos para primeira pessoa e chegamos na primeira situação ridícula de uma discussão que pode tomar dois rumos:
1) A primeira pessoa é sensata e percebe que a segunda está se equivocando ao entender errado e tenta repetir sua idéia de modo a esclarecer o que foi dito.
2) A primeira pessoa é tão louca quanto a segunda e reclama que sempre odiou círculos na vida e que merecia que todos fossem azuis mesmo.
Partindo de 2), não precisa nem comentar o que acontece, pois é trivial (Big Bang). Agora, partindo de 1), podem ocorrer mais duas outras situações:
3) A segunda pessoa chega a compreender a verdadeira idéia que a primeira queria dizer, após ter repetido.
4) A segunda pessoa continua falando dos círculos e desviando totalmente a situação.
Se por acaso a situação 1) ocorrer seguida da 3) e isso sempre acontecer, a discussão flui normalmente. Mas se por acaso, ocorrer 1) seguida de 4), o mais sensato seria a primeira pessoa sair da discussão. Porém não é o que sempre acontece. Se a primeira pessoa perceber a superioridade em sensatez e tentar fazer com que a segunda perceba sua idéia de qualquer jeito, pronto, o problema está formado.
Agora todas as situações ridículas poderíam ser evitadas se sempre as pessoas procurassem entender o que o outro está tentando dizer pelo que ele falou e não pelo que acham que ele quis dizer com o que ele falou.Vale ressaltar que lógico que conversas de fundamentos generalizados vão existir. Como discutir em termos gerais sem detalhar muita coisa, somente para chegar ao ponto de modo geral ou à grosso modo de alguma coisa. Nesse caso, se todo mundo tá discutindo de modo geral e chega alguém querendo detalhar a conversa, vai gerar atrito e desequilibrar a coisa toda.
Minha opinião pessoal sobre o motivo dessa questão das pessoas interpretarem discussões é a má educação em língua portuguesa. Isso é um assunto pra outro texto, mas chega a ser crítico a enorme deficiência dos alunos de ensino médio pra baixo que não sabe responder questões de texto não-interpretativo. É como se o aluno interpretasse 100% dos textos e não distinguisse narrativo de dissertativo e etc.
No fim das contas, quem disse que toda discussão tem que terminar com todos concordando? Nada disso. Pode acabar do jeito que começou, simplesmente. E aí discute de novo depois. Pode acabar sem chegar a lugar nenhum de novo? Por que não poderia? Discute de novo! Quanto mais difícil for chegar num acordo, MELHOR a qualidade dos que estão discutindo! Uma hora, de um jeito ou de outro, após dias, meses, anos, vai chegar num ponto de concordância e a partir dele vai acontecer o que deveria ser o objetivo de 100% das discussões e uma das coisas mais bonitas que existe: a evolução do pensamento.
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